OS PEQUENOS GESTOS


(...) Pequenos gestos anônimos valem muito mais do que aquelas manifestações espalhafatosas, cujo único proveito é o do ego de quem as alardeia. O ser humano é capaz de coisas incríveis, mas nem sempre sabe usar adequadamente esse poder que o Grande Arquiteto concedeu a todos, indistintamente. Há os que preferem o silêncio e o anonimato ao exercerem sabiamente essa poderosa prerrogativa. Mas há também os que necessitam mostrar o gesto de sua mão esquerda à direita, apenas para ouvir um elogio que satisfaça seu ego. Enfim... Cada um com sua bondade. (...)
© Marcos Gimenes Salun

BORBOLETEANDO



(...) O Ser humano é mesmo uma eterna incógnita. Tem uma trajetória tão efêmera como a de uma borboleta azul pairando aqui e acolá. A diferença é que borboletas azuis têm uma leveza natural, o que as tornam belas aos olhos de quem as conheça. Já o Ser humano costuma ter uma prepotência e uma ignorância quase inatas do que pode ou não pode ser, o que o torna um fardo pesado e desajeitado em muitos momentos. Borboletas amadurecem e completam seu ciclo com dignidade. Já o Ser humano, nem sempre. “Nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe", disse Saramago em "A Caverna". A falta dessa consciência é que torna o Ser humano tão distante das borboletas azuis, pois ele sempre pretende ser o que não é de verdade. Já as borboletas azuis são sempre autênticas e belas, por mais efêmeras que sejam.(...)
© Marcos Gimenes Salun

MOTO-PERPÉTUO


(...) Desejos podem ser feitos pela manhã e hão de durar até o sol se por. Quando escurece a mágica do que desejamos termina. Mas a noite nos permite novos sonhos. Pela manhã do novo dia voltaremos a desejar e assim a vida continuará acontecendo. A magia da existência só depende de nós e de nossos sonhos e desejos. Ou vice-versa. (...) 
© Marcos Gimenes Salun


ACHO QUE SOU HUMILDE


(...) A humildade não reside na autoafirmação daqueles que exigem que os demais a ouçam e reconheçam: "eu sou humilde!". Isto é hipocrisia! Tampouco está na publicidade que se possa dar a outrem no objetivo de dar a entender que realmente seja o tal humilde que divulga. Ao contrário, isso é um vício de personalidade que denigre a intenção. O fato de propagar o pseudoestado da humildade, traz efeito inverso. Humildade, por menos que se queira, não requer reconhecimento e deve trazer em si o gesto genuíno da simplicidade e da obviedade da virtude, sem necessidade de que outros venham a reconhecê-la e exaltá-la. A humildade não precisa de aplausos e louvores. Precisa apenas da sensibilidade genuína dos que a praticam.(...)
© Marcos Gimenes Salun


SOBRE O AMOR


(...) Anoiteci pensando na perversidade do amor. Ele é extremamente ingrato para quem pensa nele de forma intensa ou contínua. Quase nunca retribui e nem se incomoda com sentimentos alheios, pois reciprocidade ele nem sabe o que é. Por isso talvez não responda os contatos de quem o procura. Provavelmente ele seja insensível aos momentos de sofrimento ou reclusão, pois nem se importa com a solidão, ainda que momentânea. E sempre, sempre mesmo, vai achar que tem razão. O amor é mesmo assim. Meio besta, meio sempre se achando, meio comandando ou meio sempre querendo estar no comando, mas, sempre pedindo quando quer ou impedindo quando lhe convém. Como levá-lo a sério? Mas tudo isso é bom para se refletir, adormecer e talvez amanhecer com alguma lucidez. E com ela tentar saber como lidar com a imprevisibilidade e a inconstância do amor. Vai entender (...)
© Marcos Gimenes Salun

EQUILÍBRIO


(...) Um tripé sempre deixa um objeto em sustentação. O equilíbrio desse tripé é fundamental, para que não haja peso maior ou menor para qualquer dos lados, e assim mantenha-se o objeto equilibrado. Senão:  Adeus sustentação!. Infelizmente, nossos pilares, teoricamente os de sustentação de nossa Pátria, estão integralmente podres, pois feitos da pior argamassa possível e infestados da pior das misturas do esterco da escória da humanidade... Resta-nos pouco a esperar e muito a fazer! Que cada um receba sua recompensa na mais justa medida que houver! (...)
© Marcos Gimenes Salun

BONDADE E TERNURA


(...) Tudo que desagrega entristece e decepciona. Sabiamente e com inspiração divina, o Papa Francisco disse: “não devemos ter medo da bondade nem da ternura”. Parece óbvio, não é? Só que o Papa não acrescentou que a bondade e a ternura que não precisamos temer devem ser sempre as puras e sinceras, pois é algo que aos verdadeiramente bem intencionados parece implícito e soaria redundante o acréscimo. É uma pena que ainda não aprendemos a temer a bondade interesseira e a ternura hipócrita. Pregar uma coisa e praticar outra não é lá uma grande virtude dos que se entendem já tão perfeitos mestres que podem julgar à revelia, decidir destinos e subestimar inteligências. Bondade e ternura não são necessariamente virtudes. São, isto sim, apenas consequência do exercício diário da grande virtude de fazer o bem à humanidade cavando masmorras ao vício (da hipocrisia, por exemplo) e erguendo templos à virtude (da sincera verdade, como outro exemplo). Desagregar pela soberba sempre será uma grande decepção e uma enorme tristeza. (...)
© Marcos Gimenes Salun

CUMPLICIDADE


(...) Dividir segredos, que por isso, deixam de ser segredos. Dividir o corpo e a alma em confissões. Apropriar-se do alheio em surdina. Aprimorar-se na decifração de sons, sensações, palavras, trejeitos e coisas afins que não lhe são de direito. Saber e não confessar. Confessar sem saber. Querer sem poder. E ter. Tudo isso exalta os sentidos e aprisiona a alma na mais completa cumplicidade. É pecado mortal, capital ou apenas uma (a)normalidade permissiva? Quem não é cúmplice de si mesmo? (...)

© Marcos Gimenes Salun

PARA TODA VIDA



(...) Há algum tempo atrás o meu conceito para coisas que deveriam durar ad perpetuam rei memoria era bem diferente do que constatei hoje, enrolando uma mangueira de jardim, logo pela manhã. Minha mulher, comandando a operação, dizia: “Se a gente enrolar como estou falando, esta mangueira vai durar para sempre”. Eu não disse nada, mas pensei: “Claro! Afinal, o nosso ‘para sempre’ já está bem mais plausível para se acreditar hoje em dia do que há algum tempo. A maioria dos produtos que temos atualmente, com toda sua obsolecência planejada, há de durar bem mais do que nós.”   Eles é que hão de durar para sempre, já que não os veremos sucumbir. (...)
© Marcos Gimenes Salun

ESPERAS


(...) Enquanto esperei e procurei, nada aconteceu. No entanto, bastou eu me distrair, não sei quando nem porque, nem o que me levou ao descaso com o tempo de esperar, e aconteceram coisas. Soprou um vento que antes nem brisa era e levou consigo temores e receios. Depois da surpresa do inesperado, me acostumei com as coisas novas. Até que um dia elas foram se imobilizando, talvez pela monotonia ou quiçá pelo pouco que trouxeram de novidade,e voltando à mesmice de antes. E assim foi até que passei a esperar novamente pelo novo nada que poderia surgir. Tento, inutilmente, me distrair outra vez. (...)
© Marcos Gimenes Salun

RECORTES


(...) A realidade não é só um retrato instantâneo da vida obtido sem as demais circunstâncias adjacentes de onde foi capturado.  É muito mais que isso e bem mais complexo. Cada um irá reter  o que melhor lhe convier de um mesmo cenário. Por isso que o julgamento de qualquer fato isolado de seu contexto é fadado ao erro e ao equívoco. Conclusões parciais, apressadas ou superficiais são sempre uma demonstração da permissividade que os “juizes”  concedem ao erro, que todos acham por bem alegar como desculpas quando pisam na bola. A verdade, a razão e tantas outras coisas de foro íntimo são prerrogativas inalienáveis nessas oportunidades. Nunca serão quesitos a serem julgados. São premissas! Ponderação, temperança, serenidade... Coisas desse tipo são imprescindíveis antes de exteriorizar uma posição ou conceito. Um julgamento não é o simples sim ou não em relação ao fato. A imparcialidade, que só a sabedoria proporciona, é fundamental para que seja possível o melhor posicionamento. (...)
© Marcos Gimenes Salun


FATAIS


(...) Acho que era como um avatar, sem caninos cheios de sangue à mostra ou olhos azuis cintilantes e contundentes. Só desejou o que quis, sem resistências nem questionamentos e pronto. Apenas uma insinuação e alguma insistência e... está feito! Conquistar parece ser menos glamouroso que em contos de fada. Quem sabe naqueles vôos incertos a borboleta azul tenha pulverizado algum pó de magia, alguma perversidade. Ou talvez não seja bem assim. As coisas fatais são meio inesperadas e nunca previsíveis quando incorporam o mais velho duende, a mais feia e astuta bruxa, o mais faminto vampiro de toda a alcatéia da escuridão possível. Enfim... Tudo o que nos conquista parece ser coisa do outro mundo e sempre será improvável. Mas é assim mesmo que essas coisas são. E é por isso que são mágicas. (...)
© Marcos Gimenes Salun

DOSES

(...)  Alguns tragos de vodka podem parecer gavetas velhas, cheirando a mofo e reminiscências amarguradas. Outras, no entanto, e com o mesmo aroma envelhecido e tardio, podem ser apenas uma oportunidade de libertação e alegria. Todas efêmeras, no entanto.  A escolha do teu "carpe diem" é você quem faz. Enjoy e liberte-se de traumas e preconceitos, porque a vida é boa para quem a sabe viver. (...)
© Marcos Gimenes Salun

A VIDA


O sol que nasce e que se põe. A respiração. Uma flor se abrindo. Cores. Uma onda esmorecendo para ressurgir. Um abraço. O espreguiçar e a maciez de um gato. A luz de uma manhã de primavera. Fome. Um abandono qualquer. Gratidão. Uma lágrima. Nó na garganta. Serenidade. Justiça que (não) acontece. Uma nuvem solitária no céu. A imensidão de uma paisagem. O vazio de uma solidão. A tessitura de um amanhecer.  

O poente. O choro incompreendido de uma criança. Desapegos. Os matizes da aurora. Ingratidão. A intensa agonia do sofrimento. Morte. O gozo. A irrepreensível agonia da morte. Uma delicadeza qualquer. A incompreensão da morte. A incompreensão da vida. A incompreensão. Um silêncio interminável. A sabedoria. Um azul intenso. A efemeridade do azul. A efemeridade ainda maior de uma borboleta azul.  Um sono sem sonhos. Um céu nublado. Pesadelos. A urgência. A brevidade. A volúpia dos acontecimentos. O insulto. O perdão. A inversão de valores. Uma queda livre.  A culpa. Um pouso suave. Arrogância. Chegar. Partir. Julgar. Voltar. A complexidade do regresso. A brevidade de uma brisa. Uma rachadura no solo árido. A mentira. Degeneração. A possibilidade de voar dos pássaros e borboletas. A verdade. A agonia da falta de asas. A fome. Começar uma desavença. Odiar. Incompreensão. Um perfume inesquecível. O arrependimento. Todas as cores de um camaleão. Saudades. Perfume de pão. Pele. Falsidade. Reencontros. Uma nota dissonante. Uma melodia inebriante.  Um toque suave. O beijo.  Aroma de banho. Sinceridade. Compreensão. Infinito. O paraíso. Et cetera.
© Marcos Gimenes Salun

PASSAGEM


(...) Não há perenidade nas questões de tempo. Daí as coisas eternas serem às vezes incompreensíveis. Tempo é o que existe entre o começo e o fim de um ciclo. A vida dura a fração exata entre nascimento e morte.  E sempre haverá tempo justo para semear e colher, matar e curar, nascer e morrer, rir e chorar, abraçar e se afastar de abraçar. Assim, não há razão para que seja preciso usar a hipocrisia para enganar com o riso, quando for o tempo de chorar, nem de abraçar efusiva e falsamente apenas quando houver algum momento de passagem. (...)
© Marcos Gimenes Salun

QUEDAS


(...) Tão imprevisíveis quanto a própria vida. Porém, há de se convir, só cai o que está de pé e só quebra o que é inteiro. Depois é ver o que fazer. Erguer-se, curar feridas, estancar o sangue. Remendar pedaços e solidificar fraturas. Restaurar. Renovar. Não importa quanto tempo leve, a imobilização decorrente sempre proporciona o tempo justo de traçar rotas e estabelecer metas. E tocar de novo a vida, mesmo antes de estar totalmente em pé outra vez. De baixo para cima, é preciso um bom impulso. Isso é o que há de se levar em conta. (...)
© Marcos Gimenes Salun


SOLIDÃO


(...) Ah, solidão, sua bandida traiçoeira... Quantas vezes ainda precisarás estar comigo, a querer cortar-me o pulso, a pulso, a esfolar o que resta da minh’alma insone e dorida, a lembrar-me de teus vazios, de tuas fugas e deserções? Para quê ainda precisas de mim, solidão? Não tenho mais espaço para tua insistência, nem para o pouco caso de teu escárnio, menos ainda para tua postura fria e indiferente, tampouco para a insignificância que me revelas. Para quê tanto, solidão? Para quê teus rigores invernais e sem sentido, tuas distâncias infinitas e tanta, tanta indiferença? Já não tenho fôlego para suportar tuas mazelas, pois desfaleço aos poucos pelo teu eterno abandono, ou pela tua insistência em morar dentro de mim... Ah, solidão, sua bandida traiçoeira... Para não ferir, apunhalas e esfacelas o que me resta, e a fórceps me arrancas das entranhas um último vazio, mas aos pedaços e aos poucos. É para não ferir? Pois cumpre, então, o teu propósito, solidão, enquanto me sento, resignado, a esperar! De mim já tivestes tudo que havia, quase não há mais nada para arrancar. (...)
© Marcos Gimenes Salun 


PODERES INSUSPEITOS

(...) Um dia você acaba descobrindo que não precisa ser super-herói para se transformar no homem invisível, por exemplo. Basta silenciar, aguardar e espreitar os pequenos detalhes, os cantos meio escondidos, as atitudes ao redor, as coisas insuspeitas e as pessoas mais ou menos óbvias. Às vezes penso que, quem silencia ganha uma poção mágica, uma varinha de condão, um caldeirão fumegante ou algo do tipo. Mas, como estas coisas também são estereótipos da fantasia, assim como o são os tais superpoderes, creio que o que o se ganha mesmo ao manter o silêncio é talvez algo mais sobrenatural e poderoso que os clichês. A compreensão e o entendimento de pequenas coisas nos chegam nas situações mais inusitadas. Eu, pelo menos, não tenho nenhum superpoder tão especial assim, além de um tanto de paciência e pitada de resignação. Não sei que vantagem eu levo nisto, mas minha primeira impressão é que, pelo menos, deixo de me aborrecer com certas coisas. Ao menos com aquelas coisas que recebo sem nunca ter desejado algo parecido a quem quer que seja. Vou pensar num bordão para este anti-herói que me habita.(...)
© Marcos Gimenes Salun

ADIANTE!


(...) Persistência, fé, esperança e luta não são necessariamente sinônimos. Mas quando se juntam num mesmo propósito formam uma alavanca poderosíssima que pode remover entraves, superar obstáculos, escalar as mais íngremes montanhas rumo à conquista de objetivos traçados. Se você estava pensando em desistir agora, pense primeiro nessa equação que pode conter ao mesmo tempo todas as operações: multiplica esforços, soma energias, diminui desânimos e divide recompensas. Tudo quase ao mesmo tempo e sem tempo certo para acontecer. Exercite tuas virtudes e siga adiante, pois quase nenhum sonho é impossível de se realizar quando acreditamos nele. Tuas conquistas vão te proporcionar muito mais alegrias do que você imaginava. (...)
© Marcos Gimenes Salun

IMPULSO


(...) Tem momentos em que você não vai conseguir contar com nada e ninguém além de você mesmo. Parece que o mundo todo te virou as costas, tapou os ouvidos, fechou os olhos, trancou as portas e passou ferrolhos. Então é você e tua solidão. Nada mais. No melhor, algo como um par de esquis, o que é quase nada para quem não sabe esquiar. E lá vai você rumo ao nada ou, quem sabe,  a algum novo lugar. Veloz e só. Talvez seja nesses momentos, quando a descida parece muito rápida e vertiginosa, que se deve pensar que seja Deus te dando velocidade. Que seja Deus t e fazendo  tomar o impulso necessário para subir do outro lado! Mesmo estando só e quase como em queda livre. O melhor é tentar o equilíbrio e aproveitar a adrenalina enquanto se desce, cuidando-se para não cair num abismo. Em algum lugar esse percurso vai dar, com certeza. (...)  
© Marcos Gimenes Salun


OCASOS


(...) Falo do dia, que começa sempre sem que se perceba sua luz surgindo e quase sempre termina com muita grandiosidade e eloquência. Tudo que chega ao fim também poderia ser muito belo, tanto quanto o foi quando começou. Falo do dia que finda apenas em luz e intensidade. Mas que permanecerá em nós. Desde que possa ser demonstrado com amor, carinho e atenção, sem displicências, amarguras ou desafetos, tudo o que começa bem termina bem. Deve ser assim como tudo o que é planejado e realizado eternamente pelo Grande Arquiteto do Universo. Ele vive nos surpreendendo com tanta atenção e encantamento! E nunca nos pede nada em troca! E nunca nos decepciona ou humilha! E nunca nos vira as costas e se distrai diante de nossas carências! É sempre atento a tudo! Em cada detalhe! Obrigado, Senhor! (...)
"E a gente chora quando finda a tarde - by Caetano Veloso"
© Marcos Gimenes Salun

MORTE


(...)Tudo nos levará à morte. Comer demais, comer de menos. Não comer. Praticar exercícios ou o ostracismo. Prever ou remediar. Dançar ou apenas apreciar a dança. Rir ou chorar.  Praticar o bem. Ou não. Humildade ou soberba. Cumprimentar ou dissimular. Ostentar ou compartilhar. Osteoporose. Cirrose. Deficiência cardíaca. Infarto. Degeneração hepática. Câncer. Males em geral. Atrofias. Atropelamento. Assalto. Acidente. Benevolência. Conluio. Traição. Crime passional. Qualquer banalidade. Tudo nos levará à morte. Nariz empinado. Rejeição. Tolerância. Benevolência. Empáfia. Empatia. Dignidade. Falta de ética. Qualquer atitude nos levará à morte. Ser ou não ser. Talvez seja  essa a questão. Disciplina ou anarquia. Aceitar ou rejeitar. Conluio, trama, degeneração. Tudo certamente nos levará à morte. Ter. Não ter. Trabalho. Roubo. Tudo. Nossa ganância e nossa insuficiência. Nossa soberba e nossa tolerância. O bem e o mal. A dualidade, a falta de opção. Qualquer dessas coisas nos levará à morte.  Qualquer uma. E o tempo é tão curto. Imensamente curto. Então, por que não tentar as melhores escolhas em tão breve tempo a que temos direito?(...)
© Marcos Gimenes Salun

HORIZONTES


(...) Certa vez perdi o medo de horizontes. Então passei a sentar-me na beirada dos dias e a ficar mirando o decote das tardes. Imaginava o lá longe. Tinha dias que era mar, mas eu nunca cheguei a ouvir o chiado do sol mergulhando.  Ele se alaranjava e lá mergulhava, num silêncio de nada se ouvir. Só depois é que vinha a voz de alguma estrela. E tinha outros dias que era no vão dos seios das montanhas, bem no lá longe, que o sol ia dormir. Que haveria por lá? Eu mirava aquilo tudo que não entendia direito. Mas já não tinha medo. Pois se era para lá que o sol ia toda tarde e sempre voltava no dia seguinte, para que ter medo de horizontes?  (...)
© Marcos Gimenes Salun

CRENÇAS


(...) O mundo é movido por uma porção de coisas, em primeiro lugar, pela mão onipotente e poderosa do Grande Arquiteto do Universo. Para alguns tudo é fruto do acaso. Para outros, este simplesmente não existe. Há os que creem em destino, e há os que abominem essa ideia. Há quem espere pelo óbvio, que nem sempre acontece. E há também quem acredite no impossível, que de repente... Pronto! É a vida seguindo sua trajetória e são os que vivem buscando entender todo esse mistério de ganhar e perder. Seguir em frente. Conquistar. Um mistério e tanto a ser desvendado se pensarmos que há muitos que não têm sequer um pouco de fé. É preciso acreditar na vida e no jeito próprio que ela encontra para tomar conta de tudo. Eu acho. (...)
© Marcos Gimenes Salun


DESPEDIDAS E BORBOLETAS


(...) Despedidas são coisas complicadas. Nunca dá para prever exatamente quando devem acontecer. Então acontece o que já se sabe: não deu tempo, especialmente quando as despedidas são repentinas. Fica o vazio do beijo não dado, da palavra de carinho que não se disse, da frustração de ter deixado alguém ir embora sem esse último instante de presença, proximidade, carinho... E ás vezes tudo isso é para sempre. Mesmo quando as despedidas são previsíveis, os beijos e palavras carinhosas acabam ficando para algum outro momento incerto, se houver. Por isso que eu amo borboletas. Elas conseguem pairar sobre todos os momentos solitários das despedidas, mesmo aqueles momentos que já não teriam a menor possibilidade de existir.  Aí elas pairam, com seu voo incerto e fugaz, pousam com sua leveza sublime e atrevida, e então beijam  suavemente a flor. Depois partem novamente para seus caminhos incertos. (...)
© Marcos Gimenes Salun

BÁLSAMOS


(...) Um lenitivo pode amenizar dores e propiciar conforto para um lapso de sofrimento que alguém não esperava sentir.  O alívio dado à aflição é sempre bem-vindo. Não porque o consolo seja, em si, o bálsamo que se esperava nesse momento angustiante que a dor contém. Mas simplesmente pelo gesto de apreço que se pressupõe. A diminuição da fadiga que esse gesto infringe à dor é por si o grande alívio imediato que se possa querer. Muitas vezes essa cura mágica está em pequenos momentos em que se pode ouvir alguém desabafar suas dores, extravasar seus sentimentos aflitivos ou chorar algumas poucas lágrimas que só quem verte sabe a razão. Bálsamos são assim mesmo. Quase sempre se confundem aos placebos. Só que são efetivamente muito mais eficazes e valiosos. (...)
© Marcos Gimenes Salun

APRENDIZADO



(...) Julgamos certos acontecimentos ruins de nossa vida como o pior que poderia nos acontecer. Na verdade podem ser apenas desafios. Provavelmente iremos superá-los. É justamente essa superação que nos serve de aprendizado e nos dá a possibilidade de não cairmos nas mesmas ciladas novamente. Porém, caso aconteça outra vez, pode ser um sinal que a lição ainda não foi devidamente assimilada. Então é hora de rever conceitos e reciclar atitudes para tirar o melhor proveito. (...)
© Marcos Gimenes Salun

AMANHÃ


(...) Logo mais, quando amanhecer, tudo pode acontecer de forma renovada. Aquilo em que você nem acreditava mais pode estar chegando com a luz do dia que clareia. Até o projeto velho, esquecido no fundo da gaveta de tua vida, pode criar novo impulso e finalmente acontecer. Por isso é preciso acreditar em cada manhã que chega e esperar pela luz que sempre clareia nosso caminho. Toda manhã é um novo impulso para nossa vida. É preciso acreditar! (...) 
© Marcos Gimenes Salun

PRIMAVERAS NA PELE

(...) Não adianta fugir nem se esconder, pois elas chegam, se instalam, tomam posse e espalham suas cores por todos os lados. Trazem em seu bojo os sabiás laranjeira insinuando seu gorjeio já pela madrugadinha, muito antes da luz do dia que ainda nem sabe que nascerá. Seus matizes, perfumes e trejeitos são implacáveis. Assumem todos os recantos e se intrometem em todos os poros.  São alegres para disfarçar as tristezas encruadas e são claras para espairecer certas angústias teimosas.  E sem pedir licença assumem o comando, como se não houvesse nenhuma outra estação. (...) 
© Marcos Gimenes Salun

FRATERNIDADE

(...) A fraternidade é um conceito filosófico profundamente ligado às ideias de liberdade e igualdade e com os quais forma o tripé que caracterizou grande parte do pensamento revolucionário francês. Contudo, preste atenção no próximo beijo fraternal que for trocar com alguém. Repare. Pode ser que apenas lhe ofereçam o rosto para ser beijado. Não lhe parece que faltaria algo para que o conceito se aplicasse por completo? (...) 
© Marcos Gimenes Salun